Louvores Abençoadores

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O Deus vivo é um Deus missionário.

O Deus vivo é um Deus missionário. O caráter de Deus exprime isto. Missões existem para a própria glória do Senhor da missão. Missões nunca foi invenção humana. Nenhum ser do mundo seria capaz de criar um projeto tão perfeito e tão singelo como este. Missões faz parte da própria natureza de Deus.  

Primeiro: Deus e sua criação –
De acordo com Stott,   é importante conhecer a base sobre a qual repousa a missão cristã; É importante conhecer porque Deus é o criador. Porque pela primeira vez nas Escrituras vemos que o Deus Criador é também um Deus que fala. Ele fala com a sua própria criação, comunicando a ela uma ordem de restauração ou de recriação: "Disse Deus: Haja luz; e houve luz" Gn 1.3.
Este é o primeiro ato missionário de Deus. Ele liberta a sua criação das trevas. Ele estabelece também um paradigma bíblico: Deus é quem toma a iniciativa de vir em socorro da sua criação. A terra recriada serve agora para os propósitos de Deus.

 Segundo: A) Deus e a queda do homem
Com o advento da queda Foi Deus quem tomou a iniciativa missionária quando se auto-enviou ao jardim do Éden e anunciou as boas novas ao primeiro casal humano (Gn 3.15, proto-evangelho),

B) Deus e as famílias da Terra
Mais uma vez encontramos a criação em trevas. Faltava entendimento da ordem de Deus e faltava principalmente o desejo de servir o Criador. Gn 6:5,8 - A criatura, seguindo o padrão da queda, quer ser como Deus, Gn 11.4. Desobediência leva ao julgamento, 11.8-9.
Com as famílias dispersas, estabelece-se um novo caos. Deus chama a família de Abrão para abençoar as famílias sem Deus. Abrão torna-se o referencial da bênção e da maldição sobre os povos, Gn 12.1:4.

Implicações para a missão transcultural
Deus está no controle da sua criação. Ele não a abandona e nem lhe dá rédeas livres para viver conforme sua própria imaginação. A luz de Deus expulsa a treva.
Deus toma a iniciativa de libertar a sua criação. A missão é desenvolvida a partir do entendimento de que o cosmos está subordinado ao Deus Criador.
Em Abrão e no seu descendente está o referencial de salvação para a humanidade.  

Terceiro: Deus enviando Jesus
Depois enviou o Filho missionário (Jo 3.16) e por fim, Deus Pai e Deus Filho enviaram o Espírito missionário (At 1.8). Ainda hoje, Deus é o sustentador da obra missionária. Deus ama missões. Missões existem para a glória de Deus. A igreja existe para proclamar a glória de Cristo. Alguém disse que se Deus Pai é missionário, se Deus Filho é missionário e se Deus Espírito é missionário, não temos escolha, ou somos missionários ou somos impostores.

Quarto: Deus e a bíblia
Deus também nos deixou um livro missionário para nos orientar no trabalho da seara: a Bíblia. A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, inerrante, suficiente e autoritativa. Nela há um clamor missionário do primeiro livro (Gênesis) ao último (Apocalipse). Há um teor evangelístico nas Sagradas Escrituras, de modo que todo cristão é chamado a proclamar as boas novas de salvação única e exclusiva em Jesus Cristo. As Escrituras mostram muitos homens que Deus levantou na história com o único propósito de proclamar o Evangelho. Assim, não temos alternativa, ou evidenciamos a fé cristã através da obra missionária ou a negamos.

Quinto: Deus e a Igreja
A igreja foi chamada para exultar o Senhor da glória. Existimos para adorar a Deus com todo o nosso ser, alma, força e entendimento. Devemos obedecer ao mandamento de Cristo: Ir e fazer discípulos, para Ele, de todas as nações, povos e línguas, ensinando-os a guardar tudo o que Ele ensinou e batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19-20).

Missões no NT
Lucas relata que Jesus, depois de ressuscitar, reuniu seus discípulos e falou-lhes duas coisas. A primeira foi que o Antigo Testamento ensinava claramente que o Messias tinha de morrer e ressuscitar. Em seguida, acrescentou que o evangelho seria pregado a todas as nações.
O ensino que Jesus transmitiu aos discípulos após a ressurreição deve ter sido uma novidade para eles, mas estava claramente expresso no texto sagrado. Veja como Jesus falou: “Está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.46, 47).

A ordem de fazer missões é muito clara no Novo Testamento, porém Jesus buscou no Antigo Testamento a base para essa declaração. Se lermos a Bíblia toda sem observar sua ênfase sobre missões, provavelmente a estamos lendo superficialmente,  sem notar a centralidade do plano de Deus para as nações.  

Leiamos alguns textos  para comprovar que a tarefa de levar o evangelho a todas as criaturas, nações, línguas e povos não era uma novidade do primeiro século. Ela começou no coração de Deus e foi anunciada inicialmente no Antigo Testamento.


A finalidade da criação
O Antigo Testamento começa com a criação de tudo que existe. No centro de seu plano, Deus criou o homem – e todos nós – à sua imagem, por várias razões. O próprio Universo não existiu eternamente. Deus o criou com um propósito. O Universo teve início num momento da História – “no princípio” – e terminará no fim da História, após a segunda vinda de Cristo. Por que Deus decidiu fazer tudo que fez? Os cientistas ateus pesquisam a criação. Descobrem os segredos da natureza e como funcionam os processos e leis naturais, mas lamentam não saber a razão por que existe qualquer coisa, porém nós, cristãos, sabemos os motivos de o Universo e o homem existirem. Citaremos apenas cinco deles.

Primeiro motivo da criação
  O desejo de Deus de ter pessoas com quem pudesse desfrutar comunhão. Deus é social. Ele ama pessoas como nós – gente. Gente que conversa com ele. Ele queria alguém com quem pudesse conversar e de quem recebesse adoração. Por isso, criou-nos à sua imagem, para ter um relacionamento amoroso conosco. Isso se encaixa estreitamente na tarefa missionária. O propósito das missões tem seu fundamento nesse desejo de Deus. Cada pessoa que se converte hoje terá comunhão com ele eternamente. Gn. 2:4,25

Segundo motivo da criação
Deus é um Deus feliz. Deduzimos isso de uma frase de 1 Timóteo 1.11 e 6:15, “o evangelho da glória do Deus bendito”. A palavra “bendito” (makârios, no grego) quer dizer “feliz” (compare com as bem-aventuranças). Três vezes nos é dito que o nosso Deus é “bendito eternamente” (Romanos 1.25; 9.5; 2 Coríntios 11.31). Ele queria compartilhar sua felicidade com o ser humano. As pessoas mais felizes da terra devem ser os missionários. Com certeza, divulgar as boas novas, obedecer à última ordem de Cristo, levar pessoas a conhecê-lo e, por conseguinte, poder entrar no gozo do Senhor é um trabalho glorioso e tem relação direta com o motivo de Deus ter criado a humanidade. Quão felizes, para Deus, foram aqueles dias em que Ele estava criando universo (Provérbios 8.30-31)!  - Não é de se admirar que Paulo chame sua mensagem de “o evangelho da glória do Deus bendito”, ou seja, alegre! (1 Timóteo 1.11 e 6:15)

Terceiro motivo da criação
Deus nos criou para mostrar seu amor. Ele já amava o Filho, e o Filho amava o Pai, mas queriam um povo para demonstrar seu amor. Ele multiplicou a população da terra para revelar seu infinito amor. Ele derramou seu amor em nosso coração para que possamos também amar aqueles que Deus ama. Se você não é  missionário, no sentido mais lato da palavra, talvez o amor de Deus tenha sido sufocado em sua vida. Não entrou na sua veia nem nas suas artérias, por isso não circula em seu coração o desejo de alcançar os perdidos. Deus criou homens e mulheres para compartilhar sua felicidade e demonstrar seu amor. Devemos responder e corresponder ao seu amor com grata obediência. Jeremias 31:3-Os 11:8-9

Quarto motivo da criação
Deus criou o mundo para ser glorificado por meio dele. Ele criou o ser humano à sua imagem para que este pudesse glorificá-lo por causa de sua graça. Ef 1.6 é uma passagem fundamental das Escrituras porque explica o motivo pelo qual Deus nos criou. Considere seriamente que, tanto a eleição antes da fundação do mundo quanto a predestinação para sermos filhos adotivos, aconteceu, segundo esse texto, “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”. Não é possível negar, à luz dessa passagem, que o propósito original no plano da criação foi que pessoas inteligentes e dotadas de emoção louvassem a graça gloriosa de Deus. Esse é o principal motivo das missões. Paulo escreveu aos coríntios: “Todas as coisas [os sofrimentos] existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus” (2Co 4.15).

Quinto motivo da criação
Deus criou o homem para compartilhar com ele sua santidade. “Sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44). Ele não admitirá pecadores rebeldes no lar celestial. Por isso, nos manda aumentar a santidade no mundo e multiplicar o número de “santos” na terra. Um dos títulos do povo de Deus é “nação santa” (Êx 19.6), confirmando que, se Deus tem filhos na terra inseridos em sua Igreja, eles serão marcados pela santidade do “Pai” celestial.

O coração missionário de Deus revelado no Antigo Testamento

Examinemos alguns textos-chave da Bíblia para buscar as bases para missões e o propósito divino para a humanidade.

Gn 12.1-3
Esta passagem central no Antigo Testamento apresenta a chamada de Abraão, nosso pai na fé e tem importantes implicações para a obra missionária:
Disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.

Nesta passagem, que Jesus deve ter mencionado aos seus discípulos, temos uma dupla ordem: “Sai da tua terra” e “Sê tu uma bênção”. Abraão deveria sair para ser uma bênção e ser abençoado. Nele o mundo inteiro – todos os lugares, tribos, povos e nações – seriam abençoados. Cremos na Palavra de Deus e que essa promessa, ainda não concretizada inteiramente, irá se cumprir.
Existe algo mais interessante nesse texto. Qualquer contador, ou pessoa que trabalha com números, sabe que a soma de todas aquelas fileiras de cifras depende dos números que estão em cima. Ele sabe que se houver um erro em alguma dessas cifras, haverá um resultado errado na última linha. Esse princípio da matemática pode ilustrar e explicar por que o compromisso das igrejas com as missões é tão fraco.

O Brasil evangélico, até agora, enviou um número quase inexpressivo de missionários. Há menos de um missionário para cada 10 mil crentes. Estou convencido de que essa desproporção tem uma explicação razoável. Vejamos como se aplica à tarefa missionária. Como já vimos, se escrevemos números errados nas linhas de cima, a soma estará errada.

A passagem de Gênesis contém a promessa de que Deus há de abençoar a Abraão. Todos querem as bênçãos de Deus. Corresponde à linha de cima o “abençoarei”, mas se entendemos mal a linha de cima, a linha de baixo – “Sê tu uma bênção” para todas as nações (famílias) da terra – sairá errada. A bênção da promessa está diretamente ligada à obediência à ordem de ser uma bênção. Não dá certo buscar a bênção sem querer ser uma bênção. Todas as nações receberão as bênçãos prometidas a Abraão. A Palavra de Deus não pode falhar, mas primeiro é essencial que Abraão e seus descendentes pela fé sejam uma bênção. É inútil reivindicar bênçãos se não estamos abençoando os perdidos com a oferta do evangelho.

Receber benefícios da parte de Deus corresponde à linha de cima. Transmitir esses benefícios para os que não têm acesso à bênção abraâmica está diretamente vinculado às bênçãos recebidas. A bênção da salvação, a linha de cima, implica a responsabilidade de ser uma bênção, de compartilhar essa salvação com os que não têm acesso ao evangelho.
Gn 50.15-21
A história de José, em Gênesis 50, revela o mesmo princípio. Seus irmãos estavam preocupados com o fato de que José, agora exaltado com plenos poderes no Egito, retribuísse o mal que sofreu.
Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto, disseram: É o caso de José nos perseguir e nos retribuir certamente o mal todo que lhe fizemos. Portanto, mandaram dizer a José: Teu pai ordenou, antes da sua morte, dizendo: Assim direis a José: Perdoa, pois, a transgressão de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, te rogamos que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai. José chorou enquanto lhe falavam. Depois, vieram também seus irmãos, prostraram-se diante dele e disseram: Eis-nos aqui por teus servos. Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração.
Está bem claro no texto que a bênção na vida de José, depois de muitas maldições, não deveria ser limitada a ele próprio. A grande bênção que recebeu (a linha de cima) teria de implicar a bênção de sua família e muitos milhares de vidas salvas. A revelação que José recebeu sobre os anos de prosperidade e sobre a fome no Egito mostrou que Deus tinha um propósito central para sua vida. Deus o abençoou para que ele pudesse abençoar outras pessoas. A linha de cima – os benefícios recebidos – implica a linha de baixo – a concessão de benefícios aos que não os possuem. Deus nos revelou algo muito mais precioso, uma revelação mais importante que a recebida por José. A questão é: por que Deus tem abençoado a sua vida? A razão bíblica é a preservação de vidas para a eternidade na gloriosa presença de Deus. Se nos interessamos apenas em receber a bênção da salvação, sem passá-la adiante, estamos contrariando o propósito de Deus. Desprezamos a prioridade divina.

Dt 4.5-8
Aqui Moisés mostra também as duas linhas, as bênçãos decorrentes de ser o povo escolhido e a responsabilidade de abençoar as nações:

Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente. Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o Senhor, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponho?

Imagine se o Brasil estivesse na posição de Israel prevista nesse momento histórico. Se as leis escritas e assinadas pelo presidente fossem leis criadas na mente de Deus e passadas diretamente aos deputados em Brasília, como o país estaria bem! Imagine se o Brasil, como o Israel antigo, em vez de pensar em problemas e dívidas internacionais, pudesse dobrar os joelhos e usufruir a bênção notável de empregos para todos, de estarem os meninos de rua recebendo o devido cuidado. Imagine a bênção de saber que os órfãos estão sendo nutridos com as verdades de Deus. Imagine um Brasil que não precisasse cuidar de suas fronteiras nem combater o tráfico de drogas. Pense em ter Deus tão próximo a proteger a nação: não seria preciso gastar dinheiro com o Exército e nem com policiais. Leis falhas e interesseiras, feitas por homens, seriam substituídas por leis divinas e perfeitas. Beneficiado por essas leis e pela proteção divina nas crises, em resposta às orações do povo de Deus, o Brasil seria um país invejável. Foram essas bênçãos, segundo o texto de Deuteronômio, que Deus ofereceu a Israel.

Qual seria o efeito dessas bênçãos (a linha de cima) sobre os países vizinhos? O próprio texto responde. Seria um forte efeito missionário com seus benefícios. As nações vizinhas buscariam ao Senhor e seguiriam suas leis (a linha de baixo). Aprenderiam a viver bem imitando o Brasil e obedecendo às leis criadas no céu. Buscariam ao Deus único e ao seu Reino para obter as bênçãos desfrutadas pelo Brasil.

Vejo um país que tem grande interesse em ser um país evangélico. Existem até previsões de que em poucos anos o Brasil será do Senhor, mesmo antes de sua vinda. Não sei se podemos realmente esperar uma bênção tão grandiosa, mas se acontecer não será surpresa se os países vizinhos vierem buscar a mesma bênção (a linha de baixo).

Houve uma época em que um país foi extraordinariamente abençoado. Esse país foi fundado no século XVII. Os fundadores fugiram da Inglaterra para estabelecer uma nação em que Deus seria honrado e haveria liberdade de consciência. As bênçãos de Deus caíram sobre os Estados Unidos. Houve um tempo em que as crianças podiam sair de casa sem perigo. Não havia meninos de rua. As chaves ficavam dentro do carro, sem que fosse preciso trancar as portas.

As casas ficavam abertas sem muros ou sistemas de alarme. Não se pensava em violência nem se falava em drogas. Homicídio era uma raridade. Hoje não é mais assim. Esse país mudou, depois que abandonou a maioria dos princípios que garantem a bênção. A preocupação com a evangelização de todos os povos diminuiu.

Quando Jimmy Carter estava na presidência, um amigo foi convidado para falar num congresso de missões nos Estados Unidos da América. Cerca de 4 mil pessoas esperavam atentas a palavra do pastor Greg Livingstone (hoje diretor de uma missão no norte da África).

Concederam-lhe um minuto para falar. Ele foi à frente e fez a seguinte pergunta: “Quantos de vocês estão orando pela libertação dos 52 americanos sequestrados no Irã?”. Os mais velhos lembram-se da grande preocupação causada pelo sequestro daqueles americanos. Quase todas as mãos se levantaram no auditório, indicando a preocupação generalizada. Em seguida, fez outra pergunta: “Quantos estão orando pela libertação de 52 milhões de iranianos das algemas de Satanás?”. Os braços foram abaixando até não restar mais que um ou dois em toda aquela multidão. Meu amigo sentou-se, sem utilizar todo o seu minuto, dizendo: “Percebo que vocês são mais americanos que cristãos!”. Ficou claro que ele falava das duas linhas.

Aqueles milhares de pessoas preocupavam-se apenas com a linha de cima. Sabiam de quem e em que nome podiam pedir a libertação dos sequestrados, mas não tiveram a preocupação de pedir a libertação de 52 milhões de seres humanos algemados espiritualmente.

Quero deixar assentado, primeiramente em meu coração, depois no do leitor, que a linha de baixo depende de entendermos a razão pela qual Deus abençoa nossa vida. Se não recebi bênção alguma, tudo bem. Se não ganhei nada de Deus, ele não cobrará nada de mim. No entanto, se Deus tem nos abençoado de alguma maneira especial e se ele nos tem dado conhecimento da verdade de sua Palavra, com o resultado de que podemos viver e morrer felizes, temos de levar a sério a linha de baixo.
Sl 67.1, 2
Mais um texto confirma a tese desta mensagem. O salmo 67 mostra as duas linhas de maneira notável. Quantos se esqueceram de orar hoje? Quantos têm coragem de admitir isso? Provavelmente, a maioria orou. E quem não pediu qualquer bênção? Sabemos que é raríssimo orar sem pedir pelo menos uma bênção.

Animou-me bastante notar que em Sl 67.1,2, Deus não condena a prática de pedir bênçãos. Esse salmo fala de bênçãos, mas não exatamente de prosperidade:

Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação.

Meditando, perguntei para mim mesmo o que teria acontecido se a nação israelita, receptora original dessas palavras inspiradas, tivesse dado prioridade a esse texto. Como seria diferente a história da humanidade se Israel tivesse dado valor à linha de baixo e estabelecido como o mais importante alvo de sua existência abençoar a todos os árabes! O mundo tem mais de um bilhão de muçulmanos. Israel é apenas uma pequena ilha num oceano inimigo de muçulmanos. Se, em vez de se preocupar com a própria segurança, Israel tivesse pedido a bênção de Deus para os muçulmanos, a fim de que conhecessem os caminhos do Senhor, como seria diferente a história atual! Provavelmente, milhares de pessoas estariam vivas, e famílias inteiras, ainda unidas. As torres gêmeas não teriam caído em Nova York, soterrando quase 3 mil pessoas.

Quase todos os dias morrem vítimas do ódio em Israel. Parece que Israel formou sua nação para buscar a própria segurança, em vez de abençoar os povos vizinhos. Não é meu propósito lançar críticas contra ninguém, mas esse salmo não deixa dúvidas quanto ao propósito de Deus. Paremos um instante para refletir. Qual é minha preocupação maior na vida? A resposta de todos nós é a mesma. Ser abençoado por Deus. Quero que ele abençoe minha família, os filhos, os netos, a esposa, o trabalho, a situação financeira. É isso o que mais importa. E Deus não despreza tais petições, porém não estaremos glorificando a Deus se dermos prioridade à linha de cima e ignorarmos a linha de baixo.

Jesus, pouco antes de sua exaltação, declarou aos discípulos que a bênção de os povos gentios conhecerem os caminhos do Senhor deve ser o foco de seu ministério. Em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da terra, eles seriam testemunhas da graça de Deus que salva. Quero encerrar afirmando algo sobre nossa nação. Os irmãos sabem que a teologia predominante no Brasil é a chamada “teologia da prosperidade”. É quase certo que o pregador que conseguir convencer brasileiros – evangélicos, católicos, espíritas e mesmo pessoas sem religião – de que possui poder para liberar bênçãos como saúde, emprego, salário maior e paz na família será “bem-sucedido”. Quem promete abençoar o povo material e socialmente está fadado ao “sucesso”. Contudo, quero enfatizar que é uma distorção do evangelho, pois não há interesse prioritário na linha de baixo. As promessas da antiga aliança, que abençoaram Israel materialmente, tinham o propósito de persuadir os povos a adorar e obedecer a Deus na totalidade de sua existência.

Quais são as promessas da nova aliança? Cristo voltará quando todas as nações tiverem ouvido que Cristo é o único caminho para Deus. Ele é o único Salvador. O descaso para com a obrigação missionária, em razão do interesse voltado para esta vida, demonstra pouco compromisso com a vida vindoura. Não se fala muito sobre o investimento no destino final.

A busca pelo poder do Espírito como forma de obter alívio, conforto e bem-estar, em vez de testemunho e proclamação, está em desacordo com o propósito central de Deus. A teologia da prosperidade destaca o ter, e não o ser. A lei da nova aliança deve ser interna. “Esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jr 31.33). Não é a vontade de Deus que busquemos os benefícios do Reino de Deus sem dar prioridade ao próprio Reino. Os benefícios ilimitados de Deus virão no Milênio, mas poucos querem esperar um futuro distante e pouco almejado.

O resultado dessa distorção pode ser percebido no desinteresse em conhecer a Palavra de Deus. Há também quase nenhum interesse pela exegese, pela hermenêutica, pelo discipulado e pelo estudo da Palavra. Busca-se a experiência, e não o Senhor das experiências. Parece uma diferença sutil, mas é importante. O Espírito Santo é apresentado mais como fonte de poder que como pessoa divina que glorifica ao Senhor Jesus (Jo 14.13). A ênfase exagerada sobre o indivíduo desvia nossa atenção da comunhão e da responsabilidade mútua da igreja (1Pe 2.9, 10).

Não é certo omitir a ênfase sobre a obrigação e destacar apenas a motivação do amor que produz a alegria no Senhor (1Co 13.1, 4, 5).

É muito comum omitir-se a proclamação da teologia bíblica acerca do sofrimento. Nesse caso, onde se encaixaria a cruz de Cristo ou as condições do discipulado? “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz [diariamente] e siga-me” são palavras pouco ouvidas, mas foram pronunciadas por Jesus. Buscar os dons e manifestações do poder de Deus em benefício próprio, e não em benefício do Corpo de Cristo é mais um desvio do propósito bíblico revelado na Palavra. Todas essas aberrações e distorções, até o ponto em que caracterizem a igreja brasileira, mostram preocupação com a linha de cima, e não com a de baixo. Para o Brasil se tornar um verdadeiro celeiro de missões, é necessário que haja uma mudança de paradigma. Como Israel, no período do Antigo Testamento, teve a oportunidade de influenciar o mundo ao seu redor em prol do Deus único, cumprindo suas leis e demonstrando um amor profundo pelo Senhor, temos o desafio de realinhar nossas prioridades. Se genuinamente nos preocuparmos com a linha de baixo, isto é, que o evangelho seja proclamado e vivido entre todos os povos, a bênção gloriosa cairá sobre nós. Paulo assim se refere a esse futuro: “Para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a  revelação dos filhos de Deus […] para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.18, 19, 21).


Russell P. Shedd

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

BREVE HISTÓRIA DOS BATISTAS NACIONAIS

                                                                                        APRESENTAÇÃO

          Esperamos em Cristo que este trabalho, por singelo que seja, consiga atingir o fim proposto. Nosso intuito, é que, de forma resumida, contudo satisfatória, possamos traçar a linha histórica da denominação batista nacional. Sem sombra de dúvida, este é um conhecimento necessário, pois percebemos que muitos irmãos em Cristo que congregam em suas respectivas igrejas, pouco ou nada sabe sobre a doutrina e história da mesma.

          Defendemos que deveria haver uma divulgação maior da história das denominações nas igrejas, dessa forma todos teriam conhecimento melhor de suas raízes cristãs dentro da denominação, e assim, fortalecer a identidade denominacional.

          Sentiremos-nos deveras satisfeito se um dia algum batista nacional ler este breve relato e tenha um acréscimo em seus conhecimentos.

          Outrossim, as lacunas que podem ser percebidas por aqueles que já tem um amplo conhecimento do assunto devem-se ao fato de que nosso intuito não é ser exaustivo e prolixo, além evidentemente da limitação de tempo, fontes e conhecimentos.

          A Cristo toda glória!!!

INTRODUÇÃO

          Para   entendermos bem o que somos hoje é necessário sabermos o que fomos ontem e qual foi nossa trajetória para chegar ao hoje.

          A denominação batista, tanto a brasileira quanto a nacional são muito relevantes ao cenário evangélico do país.

          Teria surgido os batistas dos separatistas ingleses? Ou dos anabatistas? Ou podemos sustentar que esse povo sempre existiu, desde os tempos de Jesus?

          A Convenção Batista Nacional surgiu de forma traumática, quando da expulsão em 1965 de 32 igrejas da Convenção Batista Brasileira, simplesmente por crerem de forma diferente a respeito de dons espirituais. Essas pessoas foram alvo do que poderíamos chamar de “ódium theologicum”. Mas Deus levantou paladinos da fé para guiar esse povo. Destaca-se então as pessoas dos pastores Enéas Tognini e José do Rego Nascimento.

O SURGIMENTO DOS BATISTAS

          Há três teorias sobre a origem dos batistas. Tenhamos em mente que são teorias, portanto, nenhuma delas pode ser defendida com certeza absoluta como verdade final acerca da origem batista. Porém, evidentemente todo estudioso do assunto haverá de fazer opção por uma delas.

A Teoria J. J. J. (Jerusalém-Jordão-João)

          Segundo essa teoria o surgimento do povo batista não tem nenhum elo com a Reforma Protestante em termos históricos. Pelo contrário, os batistas sempre estiveram presentes na história da igreja, até mesmo em tempos de grande corrupção da mesma, pois Deus sempre preservou um povo fiel a Ele. Esse povo, advoga os defensores dessa teoria, eram os batistas. Os batistas então existem desde muito antes da Reforma, na verdade, teve sua origem nos tempos de Jesus. Presume-se que o nome batista seja oriundo justamente de João Batista, que batizava no rio Jordão, e pela forma de imersão como crêem os batistas.

          O problema com essa teoria é que carece de uma linha histórica coesa. É na realidade, pouco convincente. É bem verdade que em meio aos tempos difíceis de desvios doutrinário e moral sempre houve aqueles que permaneceram em conformidade com as Sagradas Escrituras. Porém, rotular essas pessoas de batistas é injustificável historicamente, para dizer o mínimo. Das três teorias parece ser a mais simplista e incongruente.

A Teoria do Parentesco Espiritual (Anabatistas)

          Esta teoria vai fazer uma associação entre os batistas e os anabatistas do século XVI no que tange à origem daqueles. O movimento radical de reforma anabatista, que esteve presente em alguns países; na Suíça sob a liderança de Conrad Grebel (1498 – 1526), na Alemanha tendo como líder Balthasar Hubmaier (1481 – 1528), e na Holanda com Menno Simons (c. 1496 – c. 1561); tinham doutrinas radicais que desafiavam tanto os católicos quanto os protestantes. Pregavam eles contra o batismo infantil por entenderem não haver base bíblica para o mesmo, a comunhão dos bens, a completa separação da igreja e o estado, negavam o pecado original e houve tentativas de previsão da volta de Cristo. Evidentemente, houve vários grupos anabatistas, e embora tivessem algumas doutrinas em comum também divergiam entre si em alguns pontos teológicos. Por conseqüência de suas doutrinas foram tidos por hereges tanto por católicos quanto por protestantes. Sofreram terrível perseguição. Muitos foram forçados a pular de penhascos, condenados à morte por afogamento, queimados em estacas, enforcados.

          Sem dúvida podemos afirmar que o conceito de igreja livre dos anabatistas influenciou os batistas. A teoria que os batistas tiveram sua origem com os anabatistas é bastante plausível.
A Teoria dos Separatistas

          Por fim, esta teoria afirma que os batistas tiveram sua origem dos separatistas ingleses no século XVII. Ao contrário do que o título parece supor, “separatistas”, este acontecimento deu-se em plena paz. E por ser uma época de perseguição religiosa, foi vantajoso essa divisão para facilitar a realização das reuniões.

          A primeira igreja batista inglesa, composta de cidadãos ingleses, surge fora da Inglaterra, na Holanda em 1608, com uma teologia arminiana e ainda sem repudiar o batismo infantil.

          Por volta de 1611, surge a primeira igreja batista inglesa em solo inglês. Sustentavam o batismo por infusão e mantinham doutrinas arminianas com as quais tinham se familiarizado na Holanda. Ficaram conhecidos como Batistas Gerais. A primeira igreja batista inglesa em solo inglês surgiu do grupo congregacional separatista. Em 12 de setembro de 1633, surgiu a 1ª Igreja Batista Particular da Inglaterra, em uma separação programada e sem trauma. O principal motivo da separação foi que esse grupo não aceitava o batismo infantil, por entender que para ser batizada a pessoa tinha que se arrepender de seus pecados, e confessar a Jesus Cristo como salvador. Esse batismo deveria ser feito por imersão. No que diz respeito à Soteriologia, mantinham uma teologia calvinista que pregava uma expiação só para os eleitos. Os batistas norte-americanos têm seus antecedentes neste grupo.

          Das três teorias aqui apresentadas esta parece ser a mais plausível historicamente

OS BATISTAS NO BRASIL

          Pode-se afirmar que a presença dos batistas no Brasil teve como impulso o crescimento dos batistas dos Estados Unidos na obra missionária, bem como movimentos avivalistas nos séculos XVIII e XIX. Em 1814, houve na cidade de Filadélfia, a Convenção Geral da Denominação Batista dos E. U. A. para Missões Estrangeiras, a chamada Convenção Trienal, por se reunir de três em três anos. Essa convenção impulsionou as missões estrangeiras. O primeiro missionário batista no Brasil, Thomas Jefferson Bowen, não veio ao Brasil de forma planejada para estabelecer uma igreja. Ele tinha sido enviado à África, mas por motivo de saúde teve que deixar seu campo missionário e vir para o Rio de Janeiro em 1860. Em 1861 retornou aos Estados Unidos.

          Nessa época os imigrantes protestantes recebiam bastante apoio do governo imperial, pois eles eram mão-de-obra qualificada que de alguma forma viria a ser benéfica ao país.

          Quando a obra batista iniciou-se oficialmente com os nacionais já havia trabalhos estruturados de outras denominações protestantes. O missionário presbiteriano A. G. Simonton aportou no Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859. Em 12 de janeiro de 1862 foi oficializada a Primeira Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro, com dois membros.

          Os primeiros missionários batistas enviados pelos batistas americanos para fundarem trabalhos batistas no Brasil foram Bagby e Taylor. A cidade escolhida por eles depois de um período de oração na busca por orientação divina foi a cidade de Salvador. O missionário Bagby explica em uma correspondência à Missão Americana (Junta Richmond) os motivos que o levaram a escolher a cidade de Salvador:

1. Era uma cidade bastante populosa.(cerca de 250 mil habitantes)
2. Era também bastante povoada a região que cercava a cidade.
3. Era ligada por mar com outros pontos importantes, e também ligada a cidades e vilas do interior pela baía, pelos rios e por duas linhas de estrada de ferro.
4. Era um campo quase desocupado: enquanto no Rio havia sei ou oito missionários de outras denominações evangélicas, na Bahia havia apenas dois presbiterianos. Além disso, aparentemente não havia qualquer obreiro nacional na Província da Bahia, enquanto no Rio de Janeiro e em São Paulo, havia além de missionários, bom número de obreiros nacionais.

                   A primeira igreja batista brasileira se instalou em Salvador em 15 de outubro de 1882, com cinco membros, dentre eles o ex-padre da Igreja Católica Romana, Antônio Teixeira de Albuquerque. A seguir a ata de instalação da igreja:

Acta Primeira da Secção de Installação da Primeira Igreja Batista na cidade da Bahia. No dia 15 de Outubro de 1882 da era christã, estando presentes nesta cidade da Bahia, no,lugar denominado Canella, às 10 horas da manhã os abaixo assignado, membros da Igreja Batista de Sta. Bárbara, na província de São Paulo, tendo se retirado daquela província para esta, unirão-se à Igreja Batista fazendo a sua installação legalmente. São os seguintes: Senr. Antonio Teixeira de Albuquerque,  Senr. Z. C. Taylor, Da. Catharina Taylor, Senr. W. B. Bagby, Da. Anna L. Bagby.

Com a expansão da obra batista foram fundadas as seguintes igrejas:

1ª Igreja Batista do Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1884;
1ª Igreja Batista de Maceió, em 17 de maio de 1885;
1ª Igreja Batista do Recife, em 04 de abril de 1886; e
1ª Igreja Batista de São Paulo, em 04 de julho de 1899.

Batistas Memoráveis
          Antônio Teixeira de Albuquerque (1840 – 1887) e José Manoel da Conceição (1822 – 1873) foram dois homens que se destacaram grandemente por fazerem oposição ao catolicismo tão predominante em nossa nação. Herdaram os sentimentos anticatólicos dos missionários norte-americanos e fizeram oposição verbal e escrita à igreja romana. Os protestantes na época sofreram oposição não apenas verbal, mas também física.

          Zachary Clay Taylor (1850 – 1919), jornalista, editor e escritor, mais propriamente jornalista e editor que escritor. Sua mais importante contribuição foi a tradução de “A origem e historia dos batistas”, de S H Ford (1886), pois ele traduz desse livro a Confissão de Fé de New Haspshire, confissão que viria a se tornar padrão entre os batistas mesmo sem ser oficializada.

          Salomão Luiz Ginsburg (1867 – 1927) pode ser considerado como um dos mais influentes formadores da teologia batista brasileira. Sua grande contribuição foram os muitos hinos que escreveu e que vieram a compor o Cantor Cristão, que teve sua primeira edição em 1891. Escreveu sua autobiografia “Um judeu errante no Brasil” e alguns folhetos.

          William Edwin Entzminger (1859 – 1930), foi o primeiro doutor em teologia entre os batistas no Brasil. Deu sua contribuição literária escrevendo livros como: “Haverá Bíblias falsas” (1897), “O poder do alto” (1904) e “A prática da oração”. Traduziu e ou escreveu 68 hinos, fundou o Jornal Batista, ao qual dirigiu por vinte anos.

          Alva Bee Langston (1878 – 1965), possivelmente o maior teólogo da história dos batistas. Autor de “A democracia batista” (1917), “O princípio de individualismo em suas expressões doutrinárias” (1933), “Esboço de Teologia Sistemática” (1959), “A doutrina do Espírito Santo”, “Noções de ética prática”, “Teologia Bíblica do Velho Testamento” (1938) e “Teologia Bíblica do Novo Testamento” (3ª Ed.: 1938).

          Willian Carey Taylor (1886 – 1971). Assim como Langston, era leitura obrigatória para candidatos ao pastorado. Era polemista, mas não focalizava os católicos, debateu com outros protestantes, inclusive com batistas. Escreveu diversos livros: “Doutrinas” (1928), comentários ao evangelho de João (1943 -1945), à epistola de Tiago (1942) e à epístola aos Gálatas (1945). Muito importante foi sua gramática grega “Introdução ao estudo do Novo Testamento” e “Manual das igrejas” 5ª ed.: (1957)

          Asa Routh Crabtree (1889 – 1965) e Antônio Neves de Mesquita (1908 – 1978) escreveram comentários bíblicos. Dentre os comentários de Crabtree merece destaque o comentário ao livro de Isaías, escreveu também uma gramática hebraica (1951) e “Teologia bíblica do Velho Testamento” (1956). De Mesquita merece destaque “Povos e nações do mundo antigo” (1954), “A doutrina da Trindade no Velho Testamento” (1956) e “A revolta dos anjos” (1975).

          Merecem menção outros nomes como: Reinaldo Purim (1897 – 1989), José Pereira dos Reis (1916 – 1991), Delcyr de Souza Lima, Aníbal Pereira Reis (1942 – 1987), Emílio Warwick Kerr, Alberto Augusto, Werner Kaschel, Russel Shed, Darci Dusilek, Almir dos Santos Gonçalves Jr., e outros.


Controvérsias Teológicas

          À partir do início do século XX, houve algumas controvérsias que refletiam a situação e os problemas que as igrejas batistas brasileiras enfrentavam. Sempre houve uma luta travada contra o catolicismo. Mas houve também controvérsias particulares, como a questão do princípio da laicidade do estado. Podemos dizer que se iniciou devido ao decreto de Getúlio Vargas em maio de 1931 que colocava, ainda que de modo facultativo, o ensino religioso em escolas públicas. Pastores e intelectuais batistas se opuseram tomando como base o princípio batista da separação entre a igreja e o estado. Entendiam que o ensino religioso na escola pública feria o princípio da laicidade do estado. O assunto foi amplamente discutido no “Jornal Batista”.

          Houve uma controvérsia mais administrativa que teológica, nas décadas de 20 a 40, era a tomada de consciência de que os brasileiros eram capazes de administrar os negócios da denominação no Brasil sem a interferência dos batistas norte-americanos. Tal controvérsia, porém, não causou uma ruptura com a tradição norte-americana.

          Através da imprensa periódica foi discutida com os presbiterianos a questão do batismo, se o batismo conforme a Bíblia é por imersão ou aspersão. Os batistas, logicamente, entendiam ser por imersão, enquanto os presbiterianos por aspersão, posições teológicas que permanecem na íntegra em nossos dias.

          A Ceia do Senhor também foi discutida, externa e internamente. A maioria dos batistas entendia que a ceia deveria ser ministrada apenas aos da denominação, “ceia restrita”, embora não tenha se tornado uma prática uniforme. É lamentável que ainda hoje haja quem defenda tal posição.

          A discussão em torno da perseverança dos santos foi travada, principalmente, por Robert Bratcher, através do Jornal Batista, e W. C. Taylor, por meio de livros. Bratcher defendia a perca da salvação, à partir da Epístola aos Hebreus. Taylor, por sua vez, defendia a eleição segundo a doutrina calvinista. Desse embate teológico, Taylor saiu vitorioso, e tornou-se dogma para os batistas de então que salvação não se perde. Bratcher se viu obrigado a deixar o Brasil.

          A controvérsia teológica mais importante da história batista com certeza foi sobre a questão do batismo com o Espírito Santo. Provocou o único racha na história da denominação. (Aludiremos a este assunto mais adiante, antecipamos, porém, a posição oficial da Convenção Batista Brasileira a respeito desse assunto:)

“A crença no batismo no Espírito Santo como uma segunda bênção, ou   seja, como uma segunda etapa na vida cristã, ou seja, ainda, como uma nova experiência posterior à conversão, não encontra base nas Escrituras. ”

A obra de Renovação Espiritual

          No início do século XX chegou ao Brasil o movimento pentecostal através de campanhas realizadas por missionários vindos do exterior. O missionário italiano Luis Francescon chegou ao nosso país em 1908 ou 1910. Presbiteriano, veio ao Brasil com um grupo de imigrantes italianos vindos de Chicago, Estados Unidos. Ele fundou a primeira igreja penstecostal no Brasil, a Congregação Cristã do Brasil. Não demorou muito para surgirem outras igrejas pentecostais, tais como a Assembleia de Deus, O Brasil para Cristo, Deus é Amor, Casa da Bênção, Maranata, Cruzada Brasileira de Evangelização.
          O movimento pentecostal caracteriza-se pela crença no batismo do Espírito Santo  como uma segunda bênção, posterior à conversão, que capacita o homem à obediência. Prega a contemporaneidade dos dons espirituais, sobretudo o dom de curas e batismo do Espírito Santo, que evidencia-se pelo dom de falar em “línguas estranhas”.

          No meio batista, como consequência natural do movimento pentecostal, houve o que ficou conhecido como movimento de “Renovação Espiritual”. Este movimento teve como proponentes iniciais a Sra. Rosalee Mills Appleby, o Pr. José Rego do Nascimento e o Pr. Enéas Tognini.

          No âmbito batista não eram apenas as igrejas a serem influenciadas pela doutrina e prática pentecostais, até mesmo o Seminário do Sul, no Rio de Janeiro foi impactado pelo carimastismo de Renovação Espiritual. Em uma carta dirigida ao Pr. Enéas Tognini,* o Pr. José do Rego Nascimento faz relatório de reuniões realizadas naquele seminário com o corpo discente do mesmo e o Pr. Rego Nascimento e outros. Nestas reuniões os seminaristas foram norteados por experiências pentecostais. É digno de nota que essas reuniões realizaram-se sem o conhecimento e aprovação do então Reitor da instituição, Pr. A. Bem Oliver. A posterior reprovação do seminário a essas reuniões e ao pentecostalismo seria apenas o início do que estava prestes a acontecer na denominação.

O lamentável racha

          Depois de muita discussão e brigas internas na denominação, a Convenção Batista Brasileira designa uma comissão de treze dos seus mais influentes pastores para estudar e apresentar um trabalho analisando o pentecostalismo à luz das Escrituras, para que assim a denominação pudesse tomar uma decisão final sobre as igrejas que vinham aderindo a Renovação Espiritual. Esta comissão, conhecida como Comissão dos 13, deveria trabalhar com o seguinte critério: três defenderiam Renovação Espiritual; José Rego do Nascimento, Aquiles Barbosa e Enéas Tognini; três contra Renovação Espiritual; Harald Schaly, Delcyr de Souza Lima e Reinaldo Purim; e sete para julgar; João Filson Soren, David Mein, Werner Kaschel, José dos Reis Pereira, David Gomes e Thurman Bryant, presididos por Rubens Lopes. Enéas Tognini, em seu livro “História dos batistas nacionais” alega que o critério acima estabelecido não foi seguido, no final todos os que não estavam a favor de Renovação acabaram julgando. Ademais, nem Enéas Tognini, nem José do Rego puderam levar adiante seus trabalhos devido a outras atividades. Segue a seguir alguns parágrafos, na íntegra, da “Declaração Final da Comissão dos Treze”.

          1. “A crença no batismo no Espírito Santo como uma segunda bênção, ou   seja, como uma segunda etapa na vida cristã, ou seja, ainda, como uma nova experiência posterior à conversão, não encontra base nas Escrituras.”.

*TOGNINI, Enéas – História dos batistas nacionais. 2ª ed. 1993, Convenção Batista Nacional, Brasília – D. F. (p. 21).

          2. “Plenitude do Espírito Santo” não é o mesmo que “Batismo no Espírito Santo. E, antes, um estado espiritual ao deve e pode chegar o crente, estado este que se caracteriza por inteira dependência e obediência à vontade do Espírito Santo de Deus e pela capacitação para a realização de Sua obra.”.

          6. “A ênfase dada à doutrina do batismo no Espírito Santo como sendo uma segunda bênção tem originado os seguintes abusos, que, sinceramente, deploramos: 1) A realizações de reuniões que se notam os mesmos erros próprios que de reuniões pentecostais, isto é, a confusão no ambiente, a gritaria, os descontroles físicos, o falar línguas e outros excessos de emocionalismo. 2) Uma atitude de orgulho espiritual, que não quer admitir opiniões opostas e que classifica de carnais e mundanos os que não participam das mesmas emoções e experiências. 3) Tentativas ostensivas ou veladas de proselitismo entre outras igrejas.”

        A referida comissão deu três recomendações, transcreveremos a terceira.

          3. “Que as igrejas e pastores que se tenham afastados das doutrinas batistas e se aproximado das doutrinas pentecostais sejam convidados com todo o amor a um reestudo de sua posição à luz do parecer ora apresentado. Caso persistam em manter pontos de vista contrários à posição doutrinária sustentada pela Convenção Batista Brasileira, sintam-se à vontade para uma retirada pacífica e honrosa, em benefício da paz da causa de Deus. Tam recomendação se limitam àqueles que fazem de suas convicções divergentes motivo de atividade ostensiva, provocando inquietação, confusão e divisão.”
São Paulo, 10 de Outubro de 1963
a)   Rubens Lopes, Presidente - Werner Kaschel, secretário - Achilles Barbosa, com restrições - David Gomes,  David Mein, Delcyr de Souza Lima, Harald Schaly, José dos Reis Pereira, Reinaldo Purim, João Filson Soren.

          Dessa forma, pela falta de tolerância e compreensão e de modo talvez precipitado, houve um racha que poderia muito bem ter sido evitado.

A HISTÓRIA DOS BATISTAS NACIONAIS

Convenção Batista Nacional

          Expulsas da Convenção Batista Brasileira, as igrejas a princípio relutaram em reunir-se em convenção. Os dois principais líderes de Renovação Espiritual; Enéas Tognini e José Rego do Nascimento não se mobilizaram para reunir as igrejas excluídas em uma convenção. É quando surge então a figura do pastor Ilton Quadros Cordeiro, pastor da Igreja Batista do Barreiro, em Belo Horizonte.

          Em 1966, o pastor Ilton Quadros Cordeiro demonstrou preocupação com o destino das igrejas excluídas. Primeiramente entrou em contato com o pastor Arthur Freire, que lhe aconselhou que seria mais conveniente ao invés de uma convenção, reunir as igrejas em uma Ação Missionária. Dessa forma foi criada a AME: Ação Missionária Evangélica, tendo o jovem pastor Wilson Régis à frente. Essa aliança na verdade não teve um governo de natureza democrático, o pastor Régis acumulou os cargos de Superintendente Geral, Tesoureiro e depois diretor do seminário STEB, Seminário Teológico Evangélico do Brasil.

          A AME não continha apenas igrejas batistas, havia também metodistas e presbiterianas que também haviam aderido ao movimento de renovação espiritual.

          No ano de 1967 extingue-se a AME dando lugar à Convenção Batista Nacional. Em sua primeira seção da assembleia inaugural, realizada às 14 horas do dia 16 de setembro de 1967, no templo da Igreja Batista da Lagoinha, é eleita a diretoria da Convenção Batista Nacional. Foi eleito presidente o Pr. Elias Brito Sobrinho; 1º vice-presidente, Pr. Joel Ferreira; 2º vice-presidente, Pr. Rosivaldo de Araújo; 1º secretário, Pr. Nivaldo Ferreira da Silva; 2º secretario, Pr. Dalson Pinto Teixeira. É também adotada na assembleia a Confissão de Fé, a mesma adotada pela Convenção Batista Brasileira, com o acréscimo do Artigo III da Convenção de Kansas City – Deus o Espírito Santo.

Doutrina
          Acreditamos ser inadequado transcrever aqui a confissão de fé da Convenção Batista Nacional, remetemos o leitor a pesquisar o Manual Básico dos Batistas Nacionais, que contém a referida declaração de fé. É basicamente a mesma da Convenção Batista Brasileira, acrescentando-se apenas o Artigo III, que versa a respeito da crença dos batistas nacionais sobre a doutrina do Espírito Santo. Este artigo foi extraído da Confissão de Fé dos Batistas do Sul dos Estados Unidos (Confissão de Kansas City).

          Julgamos necessário, porém, apresentar os princípios batistas, pois estes desejam que sejam julgados não simplesmente por suas doutrinas, mas pelos seus princípios. É o que os caracteriza como batistas. Os batistas nacionais continuaram plenamente batistas, haja vista que ratificam a necessidade e importância da prática dos princípios batistas observados pelos batistas em geral.

          Os princípios batistas é na realidade um desdobramento e aplicação da tese de doutoramento em Filosofia de A. B. Langston, (Princípios de Individualismo em Suas Expressões Doutrinárias), publicada pela então Casa Publicadora Batista, em 1933, no Rio de Janeiro.

Princípios Batistas

I – A Autoridade

1. Cristo como Senhor
A suprema fonte de autoridade é o Senhor Jesus Cristo, toda esfera da vida está sujeita à Sua Soberania.

2. As Escrituras

A Bíblia como revelação inspirada da vontade divina, cumprida e completada na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo, é nossa regra autorizada de fé e prática.

3. O Espírito Santo

O Espírito Santo é o próprio Deus revelando Sua Pessoa e vontade aos homens. Ele, portanto, interpreta e confirma a voz da autoridade divina.

II – O Indivíduo

Seu Valor
Cada indivíduo foi criado à imagem de Deus e, portanto, merece respeito e consideração como uma pessoa de valor e dignidade infinita.

Sua Competência
Cada pessoa é competente e responsável perante Deus, nas próprias decisões e questões morais e religiosas.

 Sua Liberdade
Cada pessoa é livre perante Deus em todas as questões de consciência e tem o direito de abraçar ou rejeitar a religião, bem como de testemunhar sua fé religiosa, respeitando os direitos dos outros.

III – A VIDA CRISTÃ

1.A Salvação Pela Graça
A salvação é dádiva de Deus através de Jesus Cristo, condicionada, apenas, pela fé em Cristo e rendição à soberania divina.

2.As Exigências do Discipulado
As exigências do discipulado cristão, baseadas no reconhecimento da soberania de Cristo, relacionam-se com a vida em um todo e exigem obediência e devoção completa.

3.O Sacerdócio do Crente
Cada cristão, tendo acesso direto a Deus através de Cristo, é seu próprio sacerdote e tem a obrigação de servir de sacerdote de Cristo em benefício de outras pessoas.

4.O Cristão e Seu Lar
O lar é básico, no propósito de Deus para o bem-estar da humanidade, e o desenvolvimento da família deve ser de supremo interesse para todos os cristãos.

5. O Cristão Como Cidadão
O cristão é cidadão de dois mundos – o reino de Deus e o Estado – e deve ser obediente à lei de seu país, tanto quanto à lei suprema de Deus.

IV – A IGEJA

1. Sua Natureza
A igreja, no sentido lato, é a comunidade fraterna de pessoas redimidas por Cristo e tornadas uma só na família de Deus. A igreja, no sentido local, é a companhia fraterna de crentes batizados, voluntariamente unidos para o culto, desenvolvimento espiritual e serviço.

2. Seus Membros
Ser membro de igreja é um privilégio, dado exclusivamente a pessoas regeneradas que voluntariamente aceitam o batismo e se entregam ao discipulado fiel, segundo o preceito cristão.

3. Suas Ordenanças
O Batismo e Ceia do Senhor, as duas ordenanças da igreja, são símbolos da redenção, mas sua observância envolve realidades espirituais na experiência cristã.

4. Seu Governo
Uma igreja é um corpo autônomo, sujeito unicamente a Cristo, sua cabeça. Seu governo democrático, no sentido próprio, reflete a igualdade e responsabilidade de todos os crentes, sob a autoridade de Cristo.

5. Sua Relação Para com o Estado
A igreja e o Estado são constituídos por Deus e perante ele responsáveis. Devem permanecer distintos, mas tem a obrigação do reconhecimento e reforços mútuos, no propósito de cumprir-se a função divina.

6. Sua Relação Para com o Mundo
A igreja tem uma posição de responsabilidade no mundo; sua missão é para com o mundo; mas seu caráter de ministérios são espirituais.

V – NOSSA TAREFA CONTÍNUA

1. A Centralidade do Indivíduo
De consideração primordial na vida e trabalho de nossas igrejas é o indivíduo com seu valor, suas necessidades, sua liberdade moral, seu potencial perante Cristo.

2. Culto
O culto – que envolve uma experiência e comunhão com o Deus vivo e santo – exige uma apreciação maior sobre a reverência e a ordem no culto, a confissão e a humildade, a consciência da santidade, majestade, graça e propósito de Deus.

3. O Ministério Cristão
Cada cristão tem o dever de ministrar ou servir com abnegação completa; Deus, porém, na Sua sabedoria, chama várias pessoas de um modo singular para dedicarem a sua vida, de tempo integral, ao ministério relacionado com a obra da igreja.

4. Evangelismo
O evangelismo, que é básico no ministério da igreja e na vocação do crente, é a proclamação do juízo e da graça de Deus em Jesus Cristo e a chamada para aceita-Lo como salvador e segui-Lo como Senhor.

5. Missões
As missões procuram a extensão do propósito redentor de Deus em toda parte, através do evangelismo, da educação e do serviço cristão e exigem de nós dedicação máxima.

6. Mordomia
A mordomia cristã concebe toda a vida como um encargo sagrado, confiado por Deus, e exige o emprego responsável de vida, tempo, talentos e bens – pessoal ou coletivamente – no serviço de Cristo.

7. O Ensino e Treinamento
A natureza da fé e experiência cristãs e a natureza e necessidade das pessoas fazem do ensino e treinamento um imperativo.
8. Educação Cristã
A educação cristã emerge da relação da fé e da razão e exige excelência e liberdade acadêmicas que são tanto reais quanto responsáveis.

9. A Autocrítica
Todo grupo de cristãos, para conservar sua produtividade, terá que aceitar a responsabilidade da autocrítica construtiva.

BIBLIOGRAFIA
TOGNINI, Enéas – História dos batistas nacionais. 2ª ed. 1993, Convenção Batista Nacional, Brasília – D. F.
Manual Básico dos Batistas Nacionais. 2ªed. 1986, Convenção Batista Nacional, Brasília – D. F.
AZEVEDO, Israel Belo de – A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasilerio. São Paulo: Vida Nova, 2004.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SUPERANDO A NATUREZA CAÍDA!

                                                                                             Texto: Marcos 9:14,29

“Então, Jesus lhes disse: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?…” (Marcos 9.19)

Introdução: Essas palavras fazem parte da narrativa em que Jesus libertou um rapaz endemoninhado diante do apelo do pai. Justamente aquele rapaz que alguns dos seus discípulos não conseguiram libertar. Isoladamente, essa declaração parece uma repreensão um tanto quanto dura, mas quando analisamos o contexto todo podemos perceber que há uma mensagem muito mais profunda contida nela. Essa mensagem dificilmente seria percebida em uma leitura mais superficial, pois o que se consegue ver em meio a superficialidade é apenas um forte e acusador desabafo de Jesus.

Diante disso quero chamar sua atenção aos versículos quatorze, quinze e dezesseis, do mesmo capítulo nove, do evangelho de Marcos:

“Quando eles se aproximaram dos discípulos, viram numerosa multidão ao redor e que os escribas discutiam com eles. E logo toda a multidão, ao ver Jesus, tomada de surpresa, correu para ele e o saudava. Então, ele interpelou os escribas: Que é que discutíeis com eles? ” (Marcos 9.14-16).

Perceba que o mesmo Jesus que repreendeu tão duramente seus discípulos, alguns momentos antes os defendeu da sagacidade dos escribas. Sofreria Jesus de distúrbio bipolar? Seria ELE esquizofrênico? Defende, ataca, ataca, defende? Não! Para entendermos melhor, deixe-me apontar dois detalhes que apresentam claramente a postura de correção, e não de ataque do Senhor Jesus ao declarar: “Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?…”.

Primeiro, as Escrituras são claras quando afirmam que os escribas discutiam com aqueles discípulos de Jesus, os nove, que não conseguiram libertar o menino. Essa palavra no original grego, segundo o Léxico de Strong, expressa a idéia de uma disputa através de questionamentos, através de perguntas. A Bíblia de Estudo Plenitude traz uma nota bastante elucidadora que esclarece bem o versículo quatorze: “Os escribas estavam aparentemente tirando vantagem da falha dos discípulos para libertar o garoto endemoninhado.”. Segundo, note que essa disputa, essa postura de tirar vantagem do ocorrido, se deu entre uma numerosa multidão, ou seja, os religiosos queriam gerar descrédito, queriam desacreditar aqueles homens, queriam desacreditar o movimento liderado por Jesus expondo seus mais próximos seguidores.

É justamente, em meio a essa situação, que Jesus se impôs: “Então, ele interpelou os escribas: Que é que discutíeis com eles?”. A maioria das versões bíblicas brasileiras utiliza a palavra perguntou, já a versão Revista e Atualizada (RA), acertadamente usou uma outra palavra, que apesar de não ser muito comum ao nosso português coloquial, o português do dia-a-dia, expressa uma ênfase maior, do que apenas perguntou. Essa palavra traduzida para o português como interpelou, no original grego, está procurando exprimir uma abordagem bastante incisiva de alguém que tem uma indagação, uma pergunta, é a postura de alguém que exige uma resposta para sua pergunta. Foi essa a atitude de Jesus ao fazer esse questionamento.

Fica muito evidente o ato protetor de Jesus naquele momento. Jesus não apenas defendeu sua missão, mas principalmente, defendeu seus companheiros, aqueles que dariam continuidade a sua obra. ELE queria que todos soubessem, escribas e a multidão, que aqueles nove homens faziam parte dos seus doze homens valorosos e tinham o seu aval.

Agora, como  Jesus que protegeu seus discípulos tão prontamente, momentos depois os repreende tão duramente?

“Então, Jesus lhes disse: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?…” (Marcos 9.19).

Entenderemos melhor quando considerarmos as palavras usadas por Jesus. Marcos faz menção apenas da expressão incrédula, mas Mateus e Lucas, ainda complementam com a palavra perversa, ou seja, Jesus os chamou de geração incrédula e perversa.

Seja sincero(a), qual a figura que surge em sua mente ao ouvir estas duas expressões: incrédula e perversa? Quase que instantaneamente nos vem à ideia alguém que não crê e que pratica o mal conscientemente, por puro prazer. Devido a isso a aparente controvérsia de Jesus, ora defende, ora ataca. Acontece que o significado primário dessas expressões é justamente uma referência a pessoas presas a comportamentos de uma natureza caída. A palavra incrédula significa: “pessoa infiel, que não se pode confiar”. E o significado de perversa: “pessoa que se desvia, se desencaminha”, ou seja, sai do caminho.

O quadro todo recebe uma nova luz, surge um novo entendimento: Jesus não estava apontando o dedo e repreendendo seus discípulos por não terem libertado o menino. Ele estava sinalizando o motivo pelo qual isso aconteceu: a infidelidade deles a ponto de levá-los a desviar-se dos ensinos e do estilo de vida por Ele proposto. É mais ou menos como se Jesus estivesse dizendo: “Quando vocês estão comigo operam libertações, mas sozinhos, logo se desviam por que são infiéis.”. É justamente aqui, que tudo começa a fazer sentido: o que levou aqueles homens a terem sido infiéis, o que os levou a desviar dos caminhos estabelecidos pelo Mestre, o que os fez, em meio a certa distância de Jesus, não permanecerem a altura da vocação que haviam recebido? A resposta é bem clara, objetiva e simples: a natureza caída, o poder dominador da natureza caída.

 Segundo, Pense comigo, poucos de nós foram ensinados nos caminhos do Senhor desde a infância. Calcule quantos anos você foi refém da sua própria natureza caída, influenciada pelo mundo e pelo próprio diabo. Agora pense em termos de meses, semanas, dias, horas… Eis aí uma das evidentes razões para Jesus ter escolhido um grupo para estar vinte e quatro horas com Ele. Eles foram chamados a uma desintoxicação, foram chamados a purificação, chamados a uma real transformação. Estar com ELE, para se parecer mais e mais com ELE. Jesus os chamou para que eles experimentassem uma mudança de pensamento e comportamento, Jesus os chamou para que não estivessem mais sujeitos a própria natureza caída.

É extremamente necessário reconhecer que ainda somos afetados por nossa natureza caída. Infelizmente, ela ainda exerce um domínio muito grande sobre nós. Mas a questão é: como superar isso? Como vencê-la a ponto de não mais fazer parte de uma geração incrédula e perversa? É simples, mas ao mesmo tempo, um grande desafio! É preciso parar e considerar o desejo de Jesus em fazer fluir sua vida em nós. Isso, ELE faz através de um relacionamento fundamentado na proximidade, na intimidade, na constância em se estar junto a ELE.

Vejamos as palavras do evangelista Marcos:

“Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar” (Marcos 3.14).

O primeiro interesse de Jesus, segundo Marcos, fica bem claro: “…para estarem com ele…”.

 Acompanhe essa declaração na Nova Tradução da Linguagem de Hoje:

“Então escolheu doze homens para ficarem com ele e serem enviados para anunciar o evangelho. A esses doze ele chamou de apóstolos.” (Marcos 3.14 NTLH)

Você consegue perceber a ênfase? Que tal na paráfrase conhecida como Bíblia Viva:

“Então Ele selecionou doze deles para serem seus companheiros constantes e saírem para pregar e expulsar demônios.” (Marcos 1.14-15 BV)

Faço minhas as palavras da nota da Bíblia de Estudo NVI: “… O treinamento dos doze consistia não somente em instruções e prática nas várias formas do ministério, mas também em convívio contínuo com o próprio Jesus e comunhão íntima com ele.”

Essa é a forma, a maneira, o modo, o jeito, de superar a natureza caída. É assim, e só assim, que experimentaremos a liberdade: estando com Jesus, ficando com Jesus, convivendo com Jesus!
Isso se torna mais evidente quando entendemos a ideia por trás da palavra que foi traduzida para o português como designou:“Tornar alguém alguma coisa”. Ou ainda: “Produzir, tornar pronto, fazer algo a partir de alguma coisa, fazer alguém”.

Lembre-se a forte indagação de Jesus: “Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?…”. Foi feita aqueles que não subiram o monte com ELE, aqueles que por um tempo ficaram afastados d’ELE, foi feita aqueles que deixaram-se dominar pela velha e persistente natureza caída.

Terceiro. Quando falo sobre isso: “SUPERANDO A NATUREZA CAÍDA”, É preciso que isso fique claro, quando Jesus chamou aqueles homens de incrédulos e perversos, ELE estava apontando para o domínio que  a natureza caída ainda tinha sobre eles. Essa compreensão se torna mais lúcida ainda ao percebermos como Jesus faz questão de defini-los: “Ó geração…”. No original grego, de acordo com o Léxico de Strong, essa palavra expressa a seguinte idéia: os membros sucessivos de uma genealogia. Queridos, qual era o “pedigree” espiritual daqueles homens, de qual árvore genealógica espiritual eles vinham, qual o DNA da espiritualidade deles? A religiosidade estéril! Seus antepassados conheciam muito bem a religião e eram reféns de sua esterilidade. Por isso Jesus os chamou a um relacionamento, para que eles pudessem experimentar a liberdade dessa natureza caída que apesar da religião, continuava geração após geração dominando e escravizando o ser humano.

Muitos não entendem que fazer parte de uma religião, inclusive a chamada evangélica, não possibilita essa experiência de superação da natureza caída. A maioria das religiões tem o seu valor sociológico, a maioria das religiões estabelece um padrão comportamental moral e ético elogiável, a maioria das religiões promove o bem coletivo, mas nenhuma religião proporcionará liberdade da natureza caída. Esse papel é exclusivo de Jesus.

“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8. 31-32).

Quarto. O domínio da natureza caída é tão real sobre o homem, que mesmo ele vivendo a realidade religiosa, ou até mesmo depois de dizer sim ao chamado de seguir Jesus, ele enfrentará seus ataques. Alguns pensam que Jesus quer reerguer a natureza caída do homem, não! Jesus é a Pedra Angular que veio para esmiuçar, para esmigalhar essa natureza caída. Eis a razão do chamado de Jesus ser primeiramente, em ordem e valor, para estar com ELE, conviver com ELE, antes de trabalhar para ELE: o processo de reduzir a natureza caída ao pó, a absolutamente nada.

Agora preste atenção, da mesma forma que se engana quem pensa que Jesus irá reerguer a natureza caída do homem, se engana quem pensa que esse processo de transformação é simples e rápido. Se você continuar lendo o contexto perceberá que os homens que ouviram da boca de Jesus: “Ó geração incrédula e perversa. Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?”, os nove que não conseguiram libertar o rapaz endemoninhado, juntamente com os três que subiram ao monte, momentos depois estavam discutindo sobre quem seria o maior deles:

“Tendo eles partido para Cafarnaum, estando ele em casa, interrogou os discípulos: De que é que discorríeis pelo caminho? Mas eles guardaram silêncio; porque, pelo caminho, haviam discutido entre si sobre quem era o maior. ” (Marcos 9.33-34).

Conclusão. A natureza caída só é superada num processo de relacionamento com Jesus, um relacionamento constante, diário, genuíno: “Então, designou doze para estarem com ele…”. É assim, é só assim, que a Pedra Angular tornará pó à natureza caída!

,Vencer a natureza caída é um desafio é um chamado a superação, é um chamado para estar, ficar, conviver, ser íntimo de Jesus. É um chamado para todo aquele que mesmo entendendo e experimentando a imensurável graça e misericórdia, o imensurável amor e perdão do Senhor Jesus, ainda assim em determinados momentos pode ouvi-Lo: “Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?…”


Oremos!

pr. Alberto Santos